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Praia Central: o histórico de um patrimônio público à beira do colapso

Estudos apresentados em eventos científicos desde o início da década de 2000 já alertavam sobre o problema e permitem estabelecer uma linha cronológica destas ocorrências.

No último fim de semana, dias de calor intenso como têm sido nestes dias de janeiro, a Praia Central de Balneário Camboriú continuava com a já habitual água escura e de aspecto ruim para o banho do mar, para o lazer de verão. Não é mais aquela água muitas vezes limpa, transparente e quente de anos passados. Este cenário nada agradável não é mais novidade, dada a quantidade de briozoários e algas arribados na orla quase que diariamente, e que também movimentam dezenas de funcionários e caminhões da empresa responsável pelas coletas destes organismos junto com o lixo cotidiano da cidade.

Entre os organismos arribados, duas espécies também têm chamado a atenção nos últimos dias, ou melhor, desde antes, de dezembro: o molusco Tivela mactroidese a bolacha-do-mar, possivelmente da espécie Mellitaquinquiesperforata.

A presença de ambas é considerada comum em praias com fundo denominado “areno-lamoso” de praias semi-expostas. Mas agrande ocorrência destes organismos na Praia Central atualmente, e considerando os casos de arribamento destes e de outros tantos organismos na orla, permite traçar uma ordem cronológica para um problema que se arrasta há mais de 15 anos.

A Tivela mactroidesé uma espécie de molusco bivalve nativa da Praia Central. Era encontrada no passado, associada também ao berbigão Anomalocardiabrasiensis, nos bancos areno-lodosos presentes na Barra Sul. Ambos têm, ou tinham, entre suas muitas funções, filtrar a grande concentração de nutrientes e matéria orgânica despejados no mar pelas águas do rio Camboriú.

Em 2002, porém, teve início a primeira etapa de um aterro hidráulico de 800 metros de extensão ao sul da Praia Central. A obra tinha como propósito recuperar a praia e minimizar as perdas de areia nas áreas mais afetadas por um processo erosivo causado por motivos antrópicos (causados pelo homem), como a supressão de áreas de restinga para a ocupação irregular a partir dos anos 1960, agravados por períodos de tempestades e ressacas do decorrer dos anos.

À época, a Prefeitura decidiu alimentar artificialmente parte da praia, em seu setor sul, que sofria com erosão quando da ocorrência de eventos de ressacas. Assim, em 2002, foi construído a primeira etapa de um aterro hidráulico de 800 metros de extensão no seu setor sul, com aproximadamente 50.000m³ de sedimentos dragados da desembocadura do rio Camboriú, e também, da dragagem para aprofundar a calha do rio e melhorar suas condições de navegabilidade.

Em meados de 2004, a obra chegou ao fim, após uma breve paralisação entre o seu início e sua conclusão. Ela alcançou o seu propósito de proteger a faixa praial alvo do aterro e foi ampliada, oferecendo mais espaço aos banhistas e usuários da praia em suas caminhadas. Entretanto, deixou alguns danos até hoje perceptíveis.

O fim da Tivela mactroides

Apesar delicenciada pelo órgão ambiental estadual, o aterro hidráulico iniciado em 2002 não foi precedido de um estudo amplo e específico de viabilidade técnica e de impacto ambiental. Isso gerou comoção no meio científico e repercussão na imprensa, pois muitos foram contrários ao despejo de toneladas de lama na praia. “Isso motivou um grupo de pesquisadores a fazerem o monitoramento da operação por conta própria”, lembra o oceanógrafo Fernando Diehl, que na época era diretor do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar), da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). O resultado deste monitoramento, coordenado pelo oceanógrafo Paulo Ricardo Pezzuto, foi apresentado em 2004, no InternationalCoastalSymposium – ICS’2004, evento realizado na cidade de Itapema.

Foram os primeiros alertas públicos de que as obras de dragagem estariam impactando ambientalmente a praia e a enseada de Balneário Camboriú, devido à grande quantidade de material fino (silte e argila = lama) sendo despejado na praia. Nele foi constatada massiva presença de Tivela mactroides, retiradas do delta do rio Camboriú e despejadas em grande quantidade na orla ou arribadas à praia, após mortas, pela ação das ondas.

Dois anos depois,um novo estudo, agora coordenado pelo oceanógrafo Fernando Diehl, foi apresentado no 7º Congresso de Ciências do Mar MarCuba’2006. O trabalho atualizou o panorama caótico causado pelo aterro hidráulico, que já contava cinco anos em operação. O objetivo do trabalho foi analisar, comparativamente, os resultados de ensaios ecotoxicológicos e biológicos e análises sedimentológicas realizadas durante e após o aterro da praia, identificando as alterações ambientais decorrentes da obra.

Durante e após o período das obras, a praia e a enseada passaram por rápidas transformações, como a alteração da granulometria da praia, com sedimentos mais finos, a ocorrência dos arribamentos da serapilheira, resíduos calcinados da vegetação de mangue do rio Camboriú, a Tivela mactroidesmorrendo em toneladas, e as primeiras ocorrências dos briozoários. “Foi um período de profundas mudanças”, atesta Fernando Diehl.

Neste estudo, nota-se maior concentração de cascalho e biodetrito na enseada e forte teor de silte e argila, o que justifica as mortes excessivas da Tivela mactroides, sufocadas por este sedimento fino ou simplesmente retiradas de seu habitat natural e despejadas na praia seca, para as obras de alimentação artificial. Isso fez com que a espécie literalmente sumisse da enseada durante vários anos, juntamente com o berbigão Anomalocardia brasiliana. Nota-se também neste estudo apresentado em 2006, e pela primeira vez, a presença de briozoários, até então de espécie desconhecida, mas sabidamente incomum no litoral catarinense, especialmente uma espécie exótica para a enseada de Camboriú.

Em 2007, Fernando Diehl, agora em parceria com a bióloga Laís Ramalho, acrescenta novos dados aos danos causados pelo aterro na Barra Sul e traz uma descoberta. Além da mortalidade massiva de Tivela mactroides, começa efetivamente a ocorrência de briozoários da espécie exótica Membranioporopsistubigera. A descoberta foi apresentada no 12º Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar – COLACMAR’2007, realizado em Florianópolis.

As novas constatações confirmam que a praia e a enseada de Balneário Camboriú estavam iniciando um preocupante dano ambiental que se dá quando altas cargas de matéria orgânica, bactérias e fitoplâncton são despejadas diária e constantemente em suas águas e, na ausência de organismos nativos filtradores, como aTivelamactroides e o berbigão, entre outros fatores, proliferam espécies exóticas livre de predadores, como briozoários e algas diatomáceas e filamentosas, organismos oportunistas de cuja origem verdadeira ainda é desconhecida.

Uma década se passa

Desde 2003 até os dias atuais, toneladas de briozoários e algas diatomáceas e filamentosas têm arribado na Praia Central. Sabe-se hoje que, no verão, a presença massiva é de briozoários da espécie Arbocuspisbellula, enquanto no inverno destacam-se arribamentos de algas diatomáceasAmphitetras antediluviana. Também há registros da diatomácea Biddulphiabiddulphiana.

“São espécies bioinvasoras na região, com pequena ou nenhuma importância para a fauna nativa da praia, que funcionam como um filtro para nutrientes e matéria orgânica, retirando o excesso da água e evidenciando presença de muito alimento – e esgoto – disponível em abundância nas águas da enseada”, explica o oceanógrafo Fernando Diehl.

Ele também destaca que em 2016 foram encontradas quantidades significativas de bolachas de praia na enseada, uma espécie nativa, porém, menos abundanteantes de 2015. “Não haviam sido registradas na Praia Central em grande quantidade, pois ela é encontrada no fundo, entre a zona de arrebentação até próximo a linha de praia, com maiores concentrações nas áreas mais próximas da Barra Sul e em locais onde se tem sedimento mais fino e lamoso, por isso é possível associá-la a grandes cargas de nutrientes presentes na água”.

Fernando Diehl nota ainda que, além das bolachas da praia, o molusco bivalve Tivela mactroides também retorna a partir de 2016. Inicialmente, elas ressurgiram em menor quantidade e em tamanho menor do que registrado uma década antes. Hoje, elas já podem ser encontradas em tamanhos maiores, e ocupando o mesmo espaço das bolachas do mar, que tem grande presença no fundo do mar, principalmente nas imediações da Barra Sul.

Repercussão entre argentinos

Em grupos de discussões nas redes sociais com a interação de argentinos que visitam a cidade de Balneário Camboriú, a cor da água e a grande presença de organismos arribados à beira-mar têm sido temas comuns aos debates. Eles questionam a coloração atual da água e sua qualidade, e também discutem os laudos de balneabilidade produzidos pelo Instituto do Meio Ambiente – IMA, órgão ambiental do Estado de Santa Catarina.

Moradores também têm ido às redes sociais para mostrar a estranheza que sentem ao ver longos trechos da Praia Central, principalmente aquelas onde o arribamento de organismos mortos tem sido mais frequente. Nesta semana, por exemplo, o ex-prefeito Leonel Pavan publicou um vídeo gravado às 10h, próximo à Barra Sul, onde não havia nenhum guarda-sol ou cadeira, muito menos banhistas.

“Como pesquisador, mas principalmente como morador de Balneário Camboriú, é desolador perceber a inércia do Poder Público para a solução deste problema que só se agrava”, afirma o oceanógrafo Fernando Diehl. Segundo ele, “é urgente uma tomada de decisões e atitudes, pois é nosso patrimônio natural e econômico que está se derretendo em nossas mãos e ficaremos marcados por total irresponsabilidade e imobilidade neste momento mais difícil da saúde ambiental da enseada”.

“Urge uma solução”, afirma Fernando, que percebe nas postagens dos argentinos uma triste realidade. “São centenas, milhares de exemplares de Tivela mactroides esparramados pelas areias da praia, mortos, e ninguém diz nada, nenhum questionamento, nenhuma resposta, ninguém preocupado, é tudo muito estranho. Agora, imagine o turista caminhando e se deitando entre as conchas jogadas, enquanto os funcionários da limpeza urbana, catam aquele material. É uma péssima impressão da cidade”, define o oceanógrafo.

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