Críticas construtivas são o caminho para a busca da sustentabilidade da Praia Central.

Nas últimas quatro edições desta Folha do Litoral, acompanhamos uma série de artigos mostrando os muitos problemas vivenciados na Enseada e na Praia Central de Balneário Camboriú pelo menos há 15 anos, no tocante à sua qualidade ambiental. Os textos tinham o objetivo de mostrar as transformações negativas observadas no mais importante balneário de Santa Catarina. Isso é, mostrar e explicar como a enseada vem vivenciando rápidas alterações como consequência da forma como o homem vem se relacionando com este que é o mais importante patrimônio natural e econômico da cidade.

A outrora praia de águas límpidas, de areias claras, atualmente é constantemente impactada, durante todo o ano, por uma série de arribamentos de organismos marinhos na orla, que a transformaram em um ambiente de aparência questionável, com águas muitas vezes turvas, e um cheiro ruim à beira-mar.

Ao apontar questões que consideramos importantes para a conservação do principal patrimônio público de Balneário Camboriú, certamente não agradamos a muitos moradores de nossa cidade. Um sentimento compreensível. Por isso, é certo que muitos viram no tom do conteúdo apresentado pela Folha do Litoral como tão somente crítico, de quem não gosta da cidade ou que insiste em apontar seus defeitos – e que, é importante que se diga, na concepção de alguns, são defeitos que nem existem – simplesmente por apontar, sem intenções propositivas, para o bem da cidade e de sua sustentabilidade.

Entretanto, nosso propósito é agir com consciência cidadã e, mais ainda, incentivá-la. Existem metodologias de envolvimento popular que, certamente, deveriam ser mais utilizadas para viabilizar que representantes de diferentes setores possam participar das discussões sobre a cidade. Porque todos se perguntam: em que momento poderei falar? Quando minhas ideias poderão ser apresentadas? É justamente isso o que estamos fazendo. Agindo como um cidadão que ama sua cidade e faz uso da comunicação como método para esclarecer, conscientizar, ajudar na resolução de um problema comum a todos, a fim de deixar os moradores de Balneário Camboriú menos alienados sobre o que vivenciamos.

No nosso caso, além de nos comunicarmos através dos veículos de comunicação sobre a qualidade ambiental da Praia Central, também desenvolvemos estudos técnico-científicos sobre a Enseada de Balneário Camboriú há pelo menos três décadas. Fato que nos habilita a afirmar que, muito além de falar a respeito dos problemas da cidade, cada cidadão, com sua formação e experiência de vida ou profissional, pode e deve externar opiniões.

Balneário Camboriú, e mais especificamente a Praia Central, têm problemas. Eles existem. Por isso buscamos ilustrar, de forma didática e crítica, os tantos desafios que ainda temos pela frente para solucionar um problema que em outros países já não têm mais solução. É o caso da China, por exemplo, onde praias são interditadas pela grande ocorrência de Ulva sp., uma alga verde muito comum nos costões de Balneário Camboriú. Elas “tomaram conta” de várias praias chinesas. É o caso também de algumas praias do Caribe, que já não são mais tão frequentadas pelos turistas por conta do Sargaço (Sargassum sp.), alga que se prolifera de forma absurda em algumas regiões.

É importante frisar que a intenção é de alertar sobre alguns conceitos (ou entendimentos) equivocados que têm sido amplamente divulgados pela imprensa e pelo Poder Público. Todos nós merecemos uma praia limpa, balneável, que nos dê orgulho, e que todos possam frequentar sem receios. Não queremos que os constantes arribamento de briozoários e algas nos últimos 15 anos, e cada vez com maior incidência em nossa Praia Central, chegue ao ponto de afastar turistas que anualmente movimentam a nossa principal atividade econômica, e já migram para outras praias vizinhas. Nesta temporada, nas redes sociais, foi possível encontrar depoimentos de argentinos questionando a qualidade ambiental da Praia Central. Também vimos a praia vazia em dias e horários da semana que, em janeiros anteriores, estariam tomadas por cadeiras e guarda-sóis.

Por isso, temos que ir além. Inicialmente, observar e pontuar os equívocos destes quase 55 anos de história e desenvolvimento de Balneário Camboriú, e após, agir. Hoje são necessários novos regramentos e novos paradigmas. Repensar o crescimento de nossa cidade em benefício da coletividade, e cada um de nós agir em prol da cidade que queremos. Vivemos numa bacia hidrográfica pequena, sabemos onde nascem os problemas da qualidade ambiental de nossos recursos hídricos e onde eles deságuam. Somos uma bacia de apenas dois municípios, então temos que resolver, na totalidade, o problema de saneamento básico de todo este pequeno território.

Precisamos ter consciência e equilíbrio quanto ao usufruto das águas dos rios Camboriú e Marambaia, que afetam diretamente a qualidade ambiental de nossa bela enseada, ainda repleta de morrarias verdejantes, importantes resquícios de Mata Atlântica, e protegida por dois exuberantes promontórios. Reavaliar os procedimentos para o tão desejado engordamento da Praia Central. Há muita responsabilidade técnica, social e econômica envolvida nessa questão, as quais precisam ser discutidas e analisadas com a devida seriedade. Precisamos de foco e prioridade para higienizar a orla para manter a habitual frequência de banhistas e melhorar ainda mais nossa ainda valiosa Praia Central, tão amada pelo mundo todo.

Como apontamos em nosso primeiro artigo desta série publicada pela Folha do Litoral, é preciso implantar com grande urgência um grande programa de monitoramento para obtermos um eficiente diagnóstico ambiental da enseada. Saber os parâmetros físico-químicos que caracterizam as suas águas, a sua qualidade ambiental, assim como dos sedimentos, saber qual a dinâmica deste ambiente, para onde a água circula, qual é a vida marinha da enseada, sua composição e estrutura. Daí conseguimos compreender quais são e de onde vêm as espécies que arribam à beira-mar nos últimos anos e com tanta frequência. Como elas crescem? Por que se proliferam aqui?

Tantas perguntas são necessárias para encontrar a solução dos problemas e nos prevenir para impedir o colapso de nossa Praia Central. As respostas somente dependem de ações urgentes e eficientes do Poder Público, da população e de todos os setores produtivos para a busca concreta de ações corretivas. Só assim poderemos voltar a ter a enseada e a praia saudáveis, e nos orgulharmos de nosso maior patrimônio natural e econômico.

Por: Fernando Diehl, Oceanógrafo (FURG/RS), morador de Balneário Camboriú, Mestre em Geografia: Utilização e Conservação de Recursos Naturais (UFSC), ex-diretor do CTTMar/Univali, Ex-Presidente da Associação Brasileira de Oceanografia – AOCEANO, Presidente da Associação Latino-Americana de Investigadores em Ciências do Mar – ALICMAR, e Diretor do Grupo Acquaplan.

Praia Central tomada por briozoários e algas próximo ao Marambaia (1) e na Barra Sul (2), perto do rio Camboriú.
Caribe 1 e 2: Praias do Caribe já não são mais tão frequentadas pelos turistas por conta do Sargaço (Sargassum sp.), alga que se prolifera de forma absurda.
China: Grande ocorrência de Ulva sp., uma alga verde que “tomou conta” de várias praias chinesas.

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