O fato de ser negro exige muito de você mesmo. No período escravocrata o negro submetido a torturas, cansado ele buscava caminhos para se ver livre disso. A prática mais usada era os acordos com os seus senhores.

Há relatos de na Bahia que muitos negros fugiam e sendo capturados ameaçavam enforca-se a tamanho sofrimento que eles viviam. Muitos davam como moeda de troca uma única opção para seus senhores, a venda de si mesmo para outro senhor.

Caso isso fosse negado eles ameaçavam tirar a própria vida. Talvez tivessem a noção que com a morte de um escravo os senhores teriam prejuízo financeiro.

É sabido que foram encontrados 231 casos de suicídios ou tentativas, sendo 167 homens e 64 mulheres. Ocorrido entre 1850 a 1888. Posso assim dizer que o suicídio era sua resistência contra a escravidão. Trazendo isso para os dias atuais, a nossa expressividade através da fala, escrita, dança, música e arte é a nossa resistência contra o sistema opressor no Brasil.

Mas analisando bem afundo, de certa forma, o suicídio era acarretado devido à tamanha tristeza em perder seu lar, suas origens, sua cultura, liberdade e identidade. Os que aqui chegavam não esperavam viver longe da África, a esperança eram de retornarem para lá assim que conseguissem. Algo que era difícil naquela época. Segundo alguns historiadores o banzo é um dos fatores relacionados a esses suicídios.

O banzo é o que chamamos nos dias de hoje de depressão. Os escravos recém – chegados sofriam de profunda tristeza com isso perdiam a vontade de viver. O Brasil não era o seu lar, o Brasil era o fim da sua liberdade. E se tratando da história da população negra temos que levar em conta a possibilidade de que nem todos os fatos são verídicos, pois foram décadas de nossas origens nas mãos da população branca, sendo muitas coisas ocultadas dos livros escolares.

Com isso, enquanto negros, tivemos muitas lacunas em nossas vidas. A falta de representatividade na literatura ou nas mídias são umas delas. O contraste com o passado e os dias atuais é inevitável, pois hoje vivemos ainda o pós–escravidão e a nossa liberdade marcada por uma falsa utopia de igualdade. E como bem sabemos a cor da pele gera diferença e segundo dados do IBGE, o salário dos brancos é 80% maior que os dos negros.

E a pergunta em questão é: por que os negros ganham menos que os brancos? Para quem não consegue entender todo o contexto, ou se faz de desentendido, a resposta está na cor escura de sua pele. Por mais que na história consta a liberdade de todos os negros, nós somos os novos escravos, fruto decorrente da pós-escravidão. O grito na senzala era por liberdade. E hoje o que essa liberdade trouxe para nós negros? Somos os escravos da era XXI. A desigualdade é gritante. Segundo o IBGE de 1997 a 2007, o número de negros no ensino superior era de 3%. Nos dias atuais só um a cada dez jovens negros são inseridos nas universidades.

2014 a população negra era de 53,6% segundos dados do IBGE. Levando essa porcentagem para mídias temos o número bem baixo da população negra nas mídias. Nos meios televisivos nossa representatividade é de apenas 4%. Levando em conta que muitos de nós negros não se identificamos com propagandas e programas de televisão. As mulheres vistas seja em propaganda ou programa, como quase uma regra padrão das emissoras, elas são brancas, magras e loiras.

Não posso deixar de mencionar que os cabelos são sempre lisos. Raramente você vai ver uma mulher negra fazendo propaganda de produtos de beleza como creme de pentear por exemplo. Imagina uma negra fazer propaganda de uma marca de cerveja, com os traços bem marcados de uma mulher negra, usando biquíni, seria o choque total para a sociedade. Com o cabelo bem crespo fazendo propaganda de um shampoo… Até então produtos para o tipo de cabelo afro não existia.

A propaganda diz: deixe seus cabelos sedosos, hidratados, soltos e brilhosos. Mas o cabelo já era solto, ele era liso. Por de trás disso tinha uma mensagem subliminar. A ideia de que nós mulheres negras tínhamos cabelos ruins veio com toda força. E para serem aceitas muitas mulheres passaram alisarem seus cabelos, umas em salões, outras em casa com ferros de passar roupas e depois com a modernidade das chapinhas ou escovas elétricas.

Quando passamos a ser inseridas nas mídias o nosso papel perante a sociedade não passou de escrava, empregada e objeto sexual. Nós negros consumimos mais de 1,5 trilhões de produtos por ano e mesmo sim ficamos de lado, ou inferiorizado. Quando somos colocados nas mídias é sempre para produtos com preços inferiores e qualidade inferior. Somos os coadjuvantes da história assim como também somos os que se fazem de vítimas.

Entre apresentadores negros temos 3,7% na programação televisiva do Brasil. Nas telenovelas, filmes e seriados são pouquíssimos espaços para atores negros. Saindo das mídias os negros são de 71% mortos por homicídios. No meio disso tudo nós podemos afirmar que nossas conquistas não foram por meios de terceiros e sim pela nossa resistência. Diariamente nossos objetivos ganham mais força. Queremos a valorização da nossa identidade e não ser usados como bobos da corte.

Para quem não sente e nunca sentiu na pele tudo que vivemos seremos sempre os que falam mentiras, os que se fazem de vítimas e a nossa cultura e história serão usados como atração alegórica em todos os eventos da elite branca. A discriminação para conosco sempre será forte no Brasil. São inúmeras questões a serem abordadas. E por que escravos? Porque somos vítimas do sistema. Mesmo após décadas da conquista pela nossa liberdade, os negros ficam sempre em segundo plano quando se tratam de vida digna, educação, salário e direitos garantidos por leis.

Clarisse da Costa é militante do movimento negro em Biguaçu – SC

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

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