Internacional

Parlamento britânico falha em encontrar alternativa para Brexit de May

Os deputados britânicos fracassaram nesta segunda-feira (1) na tentativa de acordar uma alternativa ao acordo impopular do Brexit negociado pela primeira-ministra Theresa May, deixando-a diante da possibilidade de voltar a apresentar um texto rejeitado três vezes.

A Câmara dos Comuns tinha se proposto tirar o processo do ponto morto em que se encontra já superada a data inicial para o divórcio, 29 de março, e faltando menos de duas semanas para o novo limite imposto por Bruxelas para se encontrar uma solução: 12 de abril, quase três anos depois do plebiscito no qual 52% dos britânicos votaram por sair da União Europeia.

Membros da Câmara dos Comuns já tentaram assumir o controle do processo Brexit na semana passada, votando oito opções. Nenhum obteve a maioria dos votos, por isso os deputados votaram nesta segunda as quatro opções selecionadas pelo presidente da Câmara, John Bercow, entre as mais populares.

São elas: deixar o bloco, mas permanecer em união aduaneira com a UE, manter também o país dentro do mercado único europeu, organizar um segundo referendo ou simplesmente revogar todo o processo, se não for alcançado um acordo.

“O objetivo deste exercício (…) é tentar identificar se existe um consenso potencial entre os deputados sobre uma forma de abordar a saída e a futura relação com a União Europeia”, enfatizou Bercow ao anunciar as propostas de votação.

“Esta é a segunda vez que a câmara considera opções sobre o caminho a seguir e uma vez mais não encontrou maioria para nenhuma das propostas”, afirmou o ministro do Brexit, Stephen Barclay.

E lembrou que na falta de um acordo, “a posição legal por default é que o Reino Unido abandone a UE em apenas 11 dias” de forma brutal. Razão pela qual chamou os deputados a adotarem o texto negociado por May, que já rejeitaram três vezes.

“O governo continua pensando que o melhor é fazê-lo o quanto antes”, acrescentou.

“Exemplo de indisciplina”

Frustrado pela incapacidade dos deputados de seu Partido Conservador em fazer concessões para tirar o país do caos, o conservador Nick Boles, um dos artífices destes infrutíferos “votos indicativos”, anunciou com lágrimas nos olhos sua saída do grupo parlamentar.


Theresa May em Maidenhead, oeste de Londres.


“O problema continua sendo que não há maioria para um Brexit dirigido pelos conservadores, nem uma maioria para um Brexit dirigido pelos trabalhistas”, destacou Simon Hix, professor de ciência política da London School of Economics.

“Ou há um acordo entre vários partidos, ou vamos sair sem acordo”, disse.

O conselho de ministros voltará a se reunir nesta terça para analisar esta nova reviravolta dramática e decidir se acha possível convocar uma quarta votação ainda esta semana sobre o impopular acordo negociado por May com Bruxelas, que os parlamentares já rejeitaram em 15 de janeiro, 12 de março e na sexta-feira passada.

Nesta última ocasião, seu acordo obteve mais apoios do que nas votações anteriores. Esta é a prova de que segue “na boa direção”, afirmou um porta-voz da Downing Street.

May dirige um governo muito dividido sobre o Brexit: “Este é o pior exemplo de indisciplina no gabinete da história política britânica”, disse Julian Smith, encarregado da disciplina de partido entre os tories.

Mas precisa desesperadamente encontrar uma solução, já que em uma cúpula excepcional convocada em 10 de abril, em Bruxelas, deve apresentar novos planos ante dirigentes europeus cuja paciência está se esgotando, advertiu o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

– “Enfrentar o abismo” –

“O Brexit é um espetáculo lamentável e o digo de forma nada diplomática”, declarou o ministro alemão das Relações Europeias, Michael Roth.

Para o ministro alemão de Assuntos Exteriores, Josep Borrell, a situação é “cômica”.

“Se eu fosse cidadão britânico, gostaria de perguntar à minha classe política como é que ainda tenho que votar para eleger representantes em uma instituição à qual decidi deixar”, disse durante uma conferência em Washington, em relação à possibilidade de que o Reino Unido tenha que participar das eleições europeias de maio se Theresa May voltar a pedir uma prorrogação para o Brexit aos seus sócios.

Para o eurodeputado Guy Verhofstadt, referência do Brexit no Parlamento Europeu, a opção de uma saída “sem acordo” se tornou “quase inevitável”.

“Nesta quarta-feira [quando poderiam ocorrer novas votações], o Reino Unido tem sua última oportunidade de sair do ponto morto ou enfrentar o abismo”, escreveu no Twitter na noite desta segunda-feira.

Foto: Protesto contra o Brexit no Parlamento britânico, em 1º de abril de 2019.

AFP / ISABEL INFANTES

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