O Bolsonarismo é um enigma político. Afinal, as pesquisas recentes indicam que, paradoxalmente, o aumento da rejeição ao Governo Bolsonaro é acompanhado pela consolidação do apoio. Ao mesmo tempo em que aumenta o número de pessoas insatisfeitas, verifica-se a manutenção de 30% que avaliam positivamente. Por isto, a narrativa Bolsonarista visa fidelizar esta minoria ativa para tentar mobilizar a maioria passiva eleitoralmente. Se conseguir manter este um terço vai transformar o Bolsonarismo numa força política poderosa. Um bom exemplo desta estratégia de confrontação constante constitui a Guerra das Versões sobre a Lava Jato.

De um lado, a versão que defesa da Operação Lava Jato. O Lavajatismo sustenta que a operação é positiva para o país, pois teria revelado a disfuncionalidade sistema político baseado no toma-lá-dá-cá e na negociata. Neste processo Sergio Moro construiu a imagem de um juiz implacável com a corrupção. Ao nomear Sergio Moro ministro da justiça o Bolsonarismo se apropria do significado político da Operação Lava Jato. Assim, para o Bolsonarismo, a Operação Lava Jato precisa ser defendida pois seria um patrimônio eleitoral. Portanto, na versão Bolsonarista a Operação Lava Jato estaria sendo vítima da tentativa de neutralização política.

De outro, a versão da Operação Vaza Jato. Com base nas revelações do site The Intercep Brasil ganha força uma nova narrativa que visa descontruir a imagem moralizadora da Lava Jato. O vazamento das conversas pelo aplicativo Telegran entre o então juiz Sergio Moro e o promotor Deltan Dallagnol teria demonstrado o caráter juridicamente e politicamente duvidoso da operação.  O caso mais emblemático seria a prisão de Lula, condenado sem provas. Ou seja, a Lava Jato se transforma em obra do Bolsonarismo. Nesta narrativa, a Lava Jato teria devastado os poderes Executivo e Legislativo e, portanto, criado uma crise de governabilidade.

Portanto, não existe espaço para a transitividade. Na política polarizada não é possível contextualizar a Lava Jato num movimento mais amplo de politização do Poder Judiciário causada pela crise do Modelo de Controle Político surgido após a Constituição de 1988. E, consequentemente, dotada de pontos positivos e pontos negativos. Por exemplo, Sergio Moro foi importante no combate a corrupção e, ao mesmo tempo, cometeu injustiças. Assim, Moro perdeu legitimidade nos setores políticos de centro e liberais, mas se fortaleceu nos setores conservadores. Ou se é a favor a Lava Jato, ou se é contra… Não é mais possível discordar.

Parece até mesmo que as pessoas se tornaram imunes aos fatos. Não importam mais as constatações, apenas as convicções pois os dados são rebaixados a opiniões. Afinal, checar informações é difícil e, quase sempre, contra intuitivo. Exige tempo e disponibilidade, o que nem sempre é evidente. Por isto, as pessoas, frequentemente, se satisfazem com versões, desde que reforcem suas próprias crenças. E por isto também, quando os fatos não comprometem a narrativa elas dizem que se tratam de Fake News…  Embora desinformação, boatos e mentiras sempre tenham existido, com as mídias sociais elas assumiram uma nova dimensão política.

Por isto, as mídias sociais desempenham um papel central na Guerra das Versões. Por um lado, a customização da informação pelos algoritmos acaba prendendo as pessoas em bolhas de filtragem; por outro, o custo (econômico e político) de produção de informação é muito baixo. Este processo acaba reforçando o viés de confirmação. O viés de confirmação constitui um processo cognitivo que reforça as nossas próprias convicções. Assim, acaba-se acreditando que porque uma informação se repete ela é verdadeira. Portanto, a crença é que quanto mais vezes uma informação for compartilhada, mais sólida ela se torna a narrativa.

Mas, além disso, as mídias sociais se transformaram no principal campo de batalha da Guerra das Versões. Por um lado, como a organização das mídias sociais se estabelece em termos de reputação a influência pode ser turbinada; por outro, quanto mais espetacular e apelativos o conteúdo maior o engajamento. Este processo transformou as notícias falsas numa epidemia que contaminaram o debate público. As versões não são consumidas apenas por militantes políticos; as pessoas com alto nível de escolaridade tendem a resistir ainda mais a informações que desafiam suas opiniões. Portanto, as mídias sociais acabam inflamando a Guerra das Versões.

Com isto as instituições republicanas não conseguem mais mediar o debate público. Partidos, sindicatos, imprensa, universidade… perderam a capacidade de articulação política. É por isto que o consenso, a pauta, a notícia, os fatos não têm mais importância. A tática utilizada para desacreditar as ideias contrárias é atacar a reputação do oponente; mas também o apelo constante as emoções para gerar solidariedade e indignação. Por isto, não existe instituição capaz de controlar o clima de conflagração política. E, desta forma, não conseguem mais responder funcionalmente. Afinal, todas as instituições parecem ter sido tragadas pela polarização.

A Guerra das Versões existe porque o Bolsonarismo propõe um governo de confrontação permanente. Precisa estar sempre atacando ou defendendo algo para se manter no poder. Como o Bolsonarismo não tem um projeto de governo apenas de hegemonia é estratégico sustentar a influência sobre 30% dos eleitores. Assim, diante da pauta caótica do governo as declarações polêmicas do Presidente Bolsonaro são importantes para o controle do debate público. E, inversamente, este processo acaba radicalizando o padrão de atuação discursiva da oposição. Neste sentido, a Guerra das Versões é o efeito emergente do projeto de hegemonia política do Bolsonarismo.

Dr. M. Mattedi

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