O Estilo Bolsonaro de Governar é a divisão. Parece até mesmo que sua capacidade de influência depende do impacto das declarações. É que o Presidente Bolsonaro não usa as mídias sociais para anunciar medidas governamentais, mas para tensionar as relações sociais, políticas e institucionais. Nos últimos dias o engatou uma série de declarações polêmicas sobre os governadores do nordeste, a morte do pai do atual presidente da OAB, as queimadas na Amazônia, a esposa do presidente da França, o pai da ex-presidente do Chile Michele Bachelet… Porém, a verborragia do Presidente Bolsonaro não consegue mais turbinar o Bolsonarismo.

A normalização da retórica tóxica vem convertendo as declarações do presidente numa espécie de Fator Bolsonaro. A utilização de declarações improvisadas foi uma arma de campanha eleitoral bem sucedida. Porém, agora, o presidente transformou o improviso, a confrontação e a polêmica em mecanismo mobilização política. Afinal, em tempos de atenção difusa da internet, é sempre quem grita mais alto e a opinião mais chocante que prendem a atenção da opinião pública. Mas, a insatisfação está se generalizando e o tempo está se esgotando para o Governo Bolsonaro. Neste sentido, o Fator Bolsonaro possui dois propósitos políticos mais evidentes.

Por um lado, as declarações do Presidente Bolsonaro visam esconder a paralisia do governo. Estamos entrando no último trimestre de 2019 e o Governo Bolsonaro não tem nada  a apresentar. Letargia econômica, o emprego em marcha lenta, a queda no investimento, desmonte da ciência, aumento da violência, descontrole ambiental… O Governo Bolsonaro é um fiasco administrativo e o desapontamento com o governo chegou a percepção geral dos brasileiros. Até mesmo a Reforma Previdenciária foi capitalizada pelo Congresso Nacional e Rodrigo Maia. Por isto a impaciência popular com o Governo Bolsonaro vem aumentando.

Por outro, visam bloquear o surgimento de um oponente a direita. Isto acontece porque quanto mais agressivas as declarações, mais ativa se torna a militância Bolsonarista. As declarações do Presidente Bolsonaro têm maior repercussão política quando confronta temas polêmicos que quando promove iniciativas do governo. Isto acontece porque uma parte do Bolsonarismo está constantemente mobilizada nas redes sociais, produzindo notícias e espalhando correntes. Baseia-se numa mobilização permanente, porém descentralizada e flexível. Neste sentido, as declarações do Presidente Jair Bolsonaro visam fidelizar e expandir o Bolsonarismo.

É que do lado de fora do governo a divisão do Bolsonarismo fica cada vez mais nítida. De um lado, alinha-se o Bolsonarismo Ideológico ligado à Olavo de Carvalho e ao conservadorismo religioso; e, de outro, o Bolsonarismo Pragmático ligado ao combate anticorrupção e ao liberalismo econômico. A capacidade da Bolsonarismo Pragmático de impor sua agenda liberal depende do Bolsonarismo Ideológico; e, inversamente, a capacidade do Bolsonarismo Ideológico impor sua agenda conservadora depende dos resultados do Bolsonarismo Pragmático. Porém, a confluência de forças que levaram Bolsonaro ao Palácio do Planalto parece estar se dissolvendo.

Ou seja, a ligação xifópaga entre a agenda do Bolsoanrismo Ideológicoe a agenda do Bolsonarismo Pragmático. Afinal, para a implementação da política de redução da maioridade penal, a definição da família como união de homem e mulher, a ampliação da restrição do aborto, o disciplinamento da conduta dos professores, tudo está ligado aos efeitos políticos da liberalização da economia, do ajuste das contas públicas, da redução de benefícios sociais. Portanto, a agenda conservadora nos costumes depende da agenda econômica liberal e, ao mesmo tempo, a agenda econômica liberal depende da agenda conservadora nos costumes.

Mais precisamente, as declarações (postagens) polêmicas podem até aumentar o alcance do Bolsonarismo, mas não necessariamente têm impacto positivo sobre a imagem do governo. As pesquisas de opinião parecem refletir este processo. A pesquisa do instituto Datafolha (03/09)indica um aumento da rejeição de Bolsonaro. O número de pessoas que consideram o governo “ruim” e “péssimo” subiu de 33%para 38%. Ou seja, os dados indicam que o Presidente Jair Bolsonaro fala 23% de seu eleitorado mais fiel. Portanto, Bolsonaro está governando para uma parcela muito específica da população, que se refere ao Bolsonarismo Ideológico.

Esta divisão reflete a tensão do lado dentro do Governo Bolsonaro. De um lado, o Polo Mobilizador formado pelo próprio Presidente Jair Bolsonaro, 02, o Ministro da Educação Abraham Weintraub, o Ministro das Relações Estrangeiras Ernesto Araújo, o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, Damares Alves do Ministério da Família, e Direitos Humanos; de outro Polo Operador constituído pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, o Ministro da Justiça Sergio Moro e da Agricultura Tereza Cristina. As trombadas entre os dois polos são fortes e os resultados medíocres. O Polo Operador procura ganhar tempo, mas o Polo Mobilizador aumenta a pressão sobre o governo. 

É difícil saber até quando o Fator Bolsonaro vai funcionar. Afinal, as declarações do Presidente  Bolsonaro miram apenas aquele um terço do eleitorado que permanece fiel a ele. Porém, o clima geral é de que Bolsonaro está voltando para seu nicho político. Por isto, não é improvável que as condições políticas estabelecidas pela redução da base de apoio ao Governo Bolsonaro coloquem em rota de colisão o Polo Mobilizador e o Polo Operador. Afinal, quanto menor forem os resultados apresentados pelo Polo Operador, mais agressivo se torna o Polo Mobilizador. É por isto que, paradoxalmente, a paralisia do governo radicaliza o Estilo Bolsonaro de Governar.

Dr. M. Mattedi

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