Santa Catarina

Falta capacitação para professor lidar com autistas em sala de aula

De acordo com Rodrigo Tramonte, que é cartunista, caricaturista e autista, falta capacitação aos professores para lidar com autistas em sala de aula. A ponderação foi feita durante palestra de Tramonte no 1º Seminário de Educação Especial, promovido pela prefeitura de Florianópolis com apoio da Assembleia Legislativa e que prossegue na tarde de quarta-feira (16), na Alesc.

“Falta capacitação dos docentes, não tem professor especialista em educação especial em sala, não tem auxiliar, mas tem curso gratuito, workshop. Sofri muita incompreensão dos professores por eles não terem discernimento de que eu era um aluno diferente, com processamento cerebral diferente e que a forma de ensinar também precisava ser diferente, o que me salvou foi a segunda época e as provas de recuperação”, revelou o autista.

Tramonte, hoje com 39 anos, frequentou a escola tradicional e se formou em Artes pela Udesc, mas somente aos 30 anos foi diagnosticado com autismo.

“É preciso saber lidar com a diferença, nenhum aluno vai aprender da mesma forma. A pessoa autista aprende melhor usando aquilo que faz parte do mundo dela, só que os professores que tive não tiveram essa noção”, avaliou o caricaturista, que criticou o método de que “todos têm de aprender a mesma coisa do mesmo jeito e ao mesmo tempo”.

A psicopedagoga Silvia Este Orru e a presidente da ONG Autonomia, Andreia Monteiro, concordaram com Tramonte.

“Não podemos continuar com uma lógica absurda de uma escola que trata a todos de forma igual, esta lógica não pode continuar. O paradigma da inclusão vem para romper com essa lógica, por isso precisamos renovar a todo instante as nossas formas de proporcionar ao outro a aprendizagem e reinventar a escola pelo direito de todos à educação”, argumentou Silvia.

“A gente vai por onde eles têm prazer e desejo, daí desenvolve, se ir fora disso, vai empacar, não anda”, explicou Andreia.

Dicas do Tramonte
Rodrigo deu dicas de como lidar com os autistas aos professores da rede municipal da capital que lotaram o auditório deputada Antonieta de Barros.

“A comunicação não-verbal é mais contundente, a cara de desgosto, o brilho de felicidade, não tem como esconder, e o autista se expressa de forma muito intensa. Aí vem a observação, não adianta só ler a cartilha, tem de observar, ver como o autista absorve o conhecimento. A base é querer ouvir o outro, exercitar a escuta”, declarou Tramonte, arrancando risos dos professores, uma vez que conhecem a dificuldade dos autistas de “exercitar a escuta”.

Segundo Tramonte, não existe uma fórmula mágica para dar aula para autistas, mas um passo importante é reconhecer algum talento e valorizá-lo.

“Meus professores, apesar das dificuldades, valorizavam meu talento artístico, quando precisavam de desenho, muitos me procuravam e até hoje lembram que eu era desenhista”.

Tramonte sugeriu aos professores foco no visual.

“Funciona melhor vendo imagens, aprende melhor vendo imagens, por isso acredito na história em quadrinhos como ferramenta pedagógica. O professor falando do descobrimento do Brasil no quadro negro pode desinteressar, por isso é bom criar personagens”, ensinou.

Para Tramonte, quando o autista não presta atenção na aula é hora do professor parar para verificar se aquilo que está sob foco do autista pode ser associado ao conteúdo da aula.

“Na biblioteca da escola tinha o Manual do Escoteiro Mirim, em vez de prestar atenção na aula, ficava lendo o livro, que era educativo, ensina como plantar, montar cabanas, como reconhecer tipos de folhas, como fazer curativos. Então, outra estratégia que o professor pode usar é ver se o que o aluno está lendo no gibi ou vendo no You Tube não dá para associar com o estudo”.

No caso do autista cego, Tramonte recomendou utilizar na aprendizagem o tato e a audição; para o surdo, o tato e a visão; para o cego e surdo, o tato, com uso intensivo de materiais facilmente palpáveis e com relevos.

“O autista aprende com o método de tentativa e erro e com prática. Ao invés de dar para ele ler um livro gigante sobre planetas, manda construir um sistema solar com bolinhas de isopor”.

Tramonte também defendeu o uso das chamadas novas tecnologias, como celulares, tabletes, computadores e videogames no processo de aprendizagem.

“Autista tem facilidade com informática, se desenvolve muito bem com instrumento eletrônicos, televisão, videogame, celular. No meu caso as telas serviram de inspiração para criar o livro “Humor Azul”, tudo é uma questão de moderação”, observou Tramonte.

Desejo de ser deputado
Rodrigo Tramonte levantou a plateia quando confessou que deseja ser um agente de mudança e cogita disputar uma cadeira no Plenário Osni Régis.

“Quero que aqui seja meu lugar de trabalho daqui a alguns anos”.

Apresentação do Coral infantil da Guarda Municipal de Florianópolis
FOTO: Bruno Collaço / AGÊNCIA AL

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