Brasil

‘Querem matar todos’, denunciam indígenas brasileiros

Defensores da selva no Brasil pediram proteção e denunciaram, durante anos, ameaças feitas por madeireiros e por outros grupos que invadem a terra indígena Arariboia, na Amazônia, para explorar seus recursos – disse a pesquisadora Sarah Shenker em entrevista à AFP neste domingo (3).

“A violência e as ameaças de morte contra os guardiões… Não é coisa nova, não. Isso está acontecendo há anos”, disse Sarah, pesquisadora da organização Survival International, sobre os “Guardiães da Selva”, um grupo que tenta proteger terras indígenas no Maranhão.

“Três guardiães já foram assassinados. Dezenas de guajajara já foram assassinadas (…) Tem muita impunidade, as autoridades que não têm vontade de proteger a terra indígena em geral…”, acrescentou.

Na noite de sexta-feira, dois líderes indígenas dos “Guardiães da Selva” – Laércio e Paulo Paulino Guajajara – sofreram uma emboscada por parte de madeireiros no Maranhão.

Paulo Paulino morreu no local, e Laércio fugiu, ferido a bala no braço e nas costas, informou a Secretaria estadual de Direitos Humanos.

“Já chegaram atirando em nós. Atiraram, pegou no meu braço. A hora que eu olhei, o Lobo (Paulo Paulino), do outro lado, vi ele no chão, com a mão no pescoço, já. Mas eu nem vi quando atiraram nele. Foi tão rápido, muito tiro. Aí, eu fugi”, contou Laércio, em declarações à Fundação Nacional do Índio (Funai).

Este líder indígena já havia denunciado várias vezes tais ameaças, incluindo em um vídeo divulgado pela Survival International em outubro de 2018: “Querem matar todos”.

Com mais de 100 indígenas guajajara, “Guardiães da Selva” surgiu como iniciativa em 2012 para proteger a terra Arariboia, lar de cerca de cinco mil indígenas dos povos guajajara e awá. Estes últimos vivem isolados, amazônia adentro.

Em junho passado, os Guardiães divulgaram um vídeo, advertindo sobre o agravamento da situação.

“Os madeireiros estão pagando pistoleiros para apagar guardiães. Todos nós estamos preocupados com esse tipo de ameaças. Há houve disparos nas casas de guardiães. Não queremos guerra, só queremos resistir”, disse na gravação Olimpio Guajajara, coordenador do grupo, sentado na frente de Paulo e de Laércio, pedindo proteção às autoridades.

“O governo é responsável por ter criado as condições necessárias para que o crime aconteça”, disse Shenker, acrescentando que “com o governo Bolsonaro [a situação] piorou, apesar de a violência não ser uma coisa nova em Arariboia”.

“As falas racistas dele, e as propostas genocidas anti-indígenas dele estão como que dando sinal verde. Os invasores estão se sentindo com mais confiança para invadir com impunidade”, afirmou a pesquisadora.

Em um comunicado, a Funai lamentou a morte de Paulo e anunciou que enviou uma assessoria técnica especial. “Nesse momento, a preocupação da Presidência da Funai é solucionar o quanto antes o conflito”, diz o texto.

Pelo Twitter, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, garantiu que não poupará “esforços para levar os responsáveis por este crime grave à Justiça”.

“Estaremos atentos para ver se o ministro cumpre sua promessa”, completou Sarah, que esteve com Laércio e Paulo Paulino Guajajara em abril, no Maranhão.


Foto: O líder indígena Paulo Paulino Guajajara, no território indígena Arariboia, no Maranhão, em abril de 2019.

SURVIVAL INTERNATIONAL/AFP / HO

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