As consequências políticas de Lula fora da prisão são a intensificação da polarização. Mais precisamente, consolida o modelo bipolar de antagonismo político em U.

É que a tensão entre Nova Direita (Bolsonarismo) e a Velha Esquerda (Lulismo) esmaga as ilusões de alternativas centristas. Por isto, o objetivo político é evitar que exista algo fora desta oposição. Isto acontece porque com a soltura de Lula, Bolsonaro passa a ter oposição. Neste sentido, a questão é saber em que medida os embates ideológicos indicam a força política de Bolsonaro e Lula. Portanto, a mistura populista entre Bolsonaro no Planalto e Lula nas ruas é potencialmente explosiva.


A ideia da polarização é fidelizar o seu eleitorado. Atualmente, o eleitorado está divido em três partes principais: a) um terço que apoia Governo Bolsonaro; b) um terço que rejeita Governo Bolsonaro; c) um terço que não apoia e nem rejeita. No caso do governo ela será liderada por Bolsonaro, e isto está dado; já no caso da oposição ao governo Lula quer assumir este processo. Assim, o grande objetivo do Bolsonarismo e do Lulismo é garantir que não exista nada fora da polarização Bolsonaro x Lula. Afinal, ambos se utilizam da demonização do outro para se alavancarem politicamente.

A questão, portanto, é saber como atrair a terceira fração eleitoral.
Solto, Lula passa a organizar a oposição e reanima a Esquerda. Os primeiros movimentos de Lula foram atacar o Governo Bolsonaro e lembrar os feitos de seu governo. Tenta converter o PT numa alternativa ao Governo Bolsonaro. Por um lado, isto envolve a apresentação de um programa de oposição; e, por outro, a mobilização popular contra o Governo Bolsonaro. Assim, o desafio político é, ao mesmo tempo, apontar para trás para manter a fidelidade dos apoiadores tradicionais, e apontar para frente para atrair novos eleitores. Por isto, coberto com o figurino de mártir Lula vai rodar o país em caravanas para organizar a oposição ao Governo Bolsonaro.


A radicalização do Lulismo faz sentido. Afinal, com a narrativa da Ética na Política e do Modo Petista de Governar foi comprometida pelos escândalos de corrupção e pela administração desastrosa do Governo Dilma, o PT precisa do contraponto da Extrema Direita. Por isto, elegeu Bolsonaro como adversário. Neste sentido, Lula converte-se num palanque ambulante de restauração política do PT: é com o discurso incendiário da vítima que o Lulismo vai operar. A estratégia consiste em excitar militantes nas redes sociais para garantir o apoio eleitoral.

Portanto, o desafio do Lulismo é deixar de falar para convertidos e reverter a inelegibilidade de Lula.
Porém, o efeito colateral da soltura de Lula é o fortalecimento de Bolsonaro. Isto significa que a reativação do Lulismo acaba beneficiando o Bolsonarismo. É que o retorno de Lula a arena política reagrupa a direita em torno do Presidente Bolsonaro. Afinal, no momento político de fragilidade política do Presidente Bolsonaro, sem o apoio sólido do centro e em guerra com o seu partido, o “Fator Lula” reestrutura a coalizão política que derrubou Dilma Rousseff e que derrotou o PT em 2018.Portanto, Lula solto legitima o discurso do risco da esquerda retomar o poder e, paradoxalmente, fortalece a estratégia eleitoral do Bolsonarismo.
Por isto, Bolsonaro testa diariamente os limites da radicalização política. Neste sentido, sua atuação tempera o populismo com a mescla de militarismo e religião. O movimento para acirrar a polarização segue dois sentidos políticos.

Por um lado, a criação de um partido de extrema direita, a Aliança pelo Brasil; por outro, a reaproximação com a banda lavajatista em função da decisão do STF. O movimento de radicalização constitui, ao mesmo tempo, um processo de depuração e institucionalização do Bolsonarismo. Portanto, o enfretamento de Lula permite esconder a incapacidade de Bolsonaro de estabilizar o própria o bloco político que lidera.
Além disso, a polarização entre Bolsonaro e Lula é potencializada pela centralidade das Mídias Sociais no processo político. Afinal, nas Mídias Sociais a moderação não produz mobilização. Ou seja, a fúria política constitui um truque publicitário necessário para ativar os militantes.

Neste sentido, as Mídias Sociais reforçam a tendência de os dois grupos adotarem posições ainda mais extremas. Alimentam mistificações e conspirações que bloqueiam a construção de soluções de compromisso: a agitação na Velha Esquerda reforça o movimento da Nova Direita. Portanto, a gritaria entre o Bolsonarismo e o Lulismo nas mídias sociais reforça a conflagração política.
A capacidade do Bolsonarismo e do Lulismo de atrair o eleitorado depende do ritmo de recuperação da atividade econômica. Neste sentido, reatualiza a velha polarização dos anos 90 sobre o papel do Estado na agenda econômica. Afinal, as reformas propostas por Guedes se alinham aos programas conduzidos por FHC. Até agora os disparates do presidente Bolsonaro não impediram o andamento da agenda econômica; porém, com a volta de Lula começa a ganhar corpo pregação contra a perda de direitos. Como reformas sempre pioram a situação da população antes de melhorar, a questão é, portanto, como explorar a insatisfação.


A polarização compreende a tendência a adoção de posições cada vez mais extremas. É a política do nós contra eles: o ódio ao inimigo pelo medo que ele assuma o poder. Enquanto Bolsonaro acusa Lula de corrupto, Lula acusa Bolsonaro de miliciano…aqui não se trata de contraposição de propostas, mas apenas de desconstrução do adversário. A intensificação da polarização interessa tanto a Bolsonaro quanto a Lula porque reduz o espaço para candidaturas alternativas. Afinal, o Bolsonarismo alimenta o Lulismo e o Lulismo alimenta o Bolsonarismo. Portanto, a política em U prende o Brasil nas trincheiras ideológicas do Bolsonarismo e o Lulismo.

Dr. M. Mattedi

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