O Brasil como nos parece ser

Impressões da pandemia: excesso de zelo, vida e economia

Em meio à pandemia do coronavírus, estamos diante de um drama coletivo: a perda de vidas e a depressão econômica. Provavelmente, reagiremos como nunca, pelos recursos vitais e cognitivos que geramos ao longo do processo civilizatório. Há muito a refletir, dizer e fazer no esforço evolutivo da história. Desdobrarei minha análise sobre a pandemia em alguns artigos, sem me esquivar de temas como o papel do Estado, dos líderes, dos governos, da Sociedade, sobre a ciência, as contas públicas e o poder, entre outros. Neste primeiro artigo, faço uma observação parcial sobre a dicotomia entre a vida humana e a economia, e o dilema do governante.

           Um estudo atual sobre o isolamento durante a gripe espanhola, há um século, sugere a falsidade do dilema entre a vida e a economia. Também ajudará a avaliar o comportamento do governo catarinense e de outros, inclusive o federal. Independente das narrativas que se criarem, a verdade aparecerá pelas evidências em algumas semanas e não sobrarão dúvidas sobre o que de fato terá acontecido e quem tinha mais ou menos razão. O que já está claro e desde sempre é que governantes precisam escolher prioridades e tomar decisões, integrando a Sociedade e demonstrando liderança. Jamais encontrarão a justa medida e serão julgados pela história, não pelas intenções, mas pelos resultados.

            O mencionado estudo publicado há dias na imprensa internacional tem sugestivo título: “As pandemias deprimem a economia, as intervenções de saúde pública não: evidências da gripe de 1918”. A autoria é dos cientistas Emil Verner, da Escola de Negócios do MIT – EUA, além de Sergio Correia e Stephen Luck, ambos pesquisadores do Federal Reserve dos EUA. O Fed, como é chamado, é um sistema integrado e constituído por todos os governadores, por um comitê de economistas e pelos doze presidentes dos bancos centrais regionais. Observe o leitor com que suporte informacional o presidente dos EUA toma decisões, integra a Sociedade e demonstra liderança.

O relatório afirma que a intervenção preventiva na forma de isolamento social mitiga a propagação da doença, mas causa violento desemprego (isso só não parece uma catástrofe a privilegiados e tolos). Não há decisão ótima nessas circunstâncias e o avanço da pandemia, associando morte e desemprego, torna as respostas políticas ainda mais dramáticas e questionáveis. Os pesquisadores se debruçaram sobre o episódio da gripe espanhola de 1918 e perceberam estatisticamente algo talvez muito importante: as cidades e regiões cujos governantes interviram com antecedência e radicalidade, foram as primeiras a se recuperar economicamente.

            A pandemia da gripe espanhola durou três anos (1918-1920), infectando um terço da população do Planeta e matando 50 milhões de pessoas, 600 mil nos EUA. O país norte-americano viveu uma recessão grave até meados de 1921, mas algumas regiões sofreram além disso. Os pesquisadores analisaram os impactos da gripe nas economias dos principais estados e cidades estadunidenses. Onde houve mais mortes em 1918 foi onde também houve mais desemprego industrial, inadimplência entre empresas e famílias. Eles também constataram que as regiões onde a doença foi menos controlada a recessão econômica demorou um ano a mais para começar e dois anos a mais para cessar (1919 a 1923).

            A gripe de 1918chegou primeiro na costa leste e cidades como Filadélfia foram duramente afetadas, sobretudo pela demora em identificar a causa das mortes. Na medida em que o restante do país foi alertado, cidades do oeste como Seattle se anteciparam com medidas de isolamento e não faltaram queixas ao fechamento do comércio, da indústria e de escolas, além da inibição a aglomerações. Os pesquisadores concluem que as medidas preventivas salvaram vidas às custas da interrupção da economia, afetando oferta e demanda. Posteriormente, contudo, o efeito mostrou a eficácia das intervenções. Salvar vidas é também salvar agentes produtivos e de capacidade reativa pós-pandemia.

Os autores estabeleceram uma relação positiva, estatisticamente demonstrável, entre medidas duras de precaução com resultados econômicos menos desastrosos. Os pesquisadores procuram demonstrar que as cidades que agiram antes e mais contundentemente tiveram um resultado relativamente positivo nos indicadores econômicos ao final da crise. Assim, as cidades que se anteciparam em 10 dias depois do primeiro caso confirmado, apresentaram empregabilidade 5% maior na indústria após a pandemia. As cidades que mantiveram as medidas de isolamento por mais de 50 dias registraram 6,5% a mais de geração de emprego industrial após o fim da pandemia.

Os pesquisadores reconhecem diferenças entre aquela situação e a atual, requerendo cuidados interpretativos que impedem generalizações definitivas. De toda maneira, a pesquisa está apoiada estatisticamente por “evidências epidemiológicas e verificações de robustez”, segundo eles. E concluem que, conquanto pandemias sejam “altamente prejudiciais à atividade econômica”, a pronta resposta dos governos “pode ​​reduzir a mortalidade e, ao mesmo tempo, ser economicamente benéfica”. Em meio às pressões e ao sofrimento que todos esperam seja o menor possível, essas informações científicas devem chamar à atenção para a produção de rápidos diagnósticos e orientar decisões governamentais.

Ao largo de uma estupidez presidencial jamais vista no Brasil, os desdobramentos da crise em termos de óbitos e prejuízos de ordem material, psicológica e moral só serão devidamente interpretáveis daqui há algum tempo. Mas o que já sabemos é que o número de mortes aumenta exponencialmente. Dobrou em quatro dias (de 487 registros em 05 de abril para 957 em 09/04). Em 20 dias, as mortes ultrapassam o prognóstico mórbido que o presidente da República fez em entrevista ao Programa do Ratinho, no SBT, em 22/03. Estimava que tudo não passaria de “umas 800”, provavelmente baseado em prognósticos do comitê de notáveis que o assessorou no primeiro discurso à Nação sobre a pandemia.

Do lado oposto, as decisões calibradas do governo catarinense estão baseadas em estatísticas, que geram diagnósticos, permitem prognósticos e respaldam decisões públicas. Recurso preciosíssimo, a estatística foi o principal instrumento cognitivo na formação dos Estados modernos e é absolutamente indispensável para salvar vidas e economias. Na hora “h”, vale mais que palavras e orações, que dirá de passividade e negação às evidências. A exemplo do ministério da Saúde, o governo de Santa Catarina, entre outros governadores, não tem ilusões. O problema é sério e não há suficiente logística a enfrenta-lo.

Por essa razão lógica, e não intuitiva, o isolamento tem sido decretado. Não é para impedir a reeleição do presidente da República, algo para o que ninguém precisará mover um só dedo daqui em diante. O presidente da República não é a pessoa certa para o momento difícil. Cercado de bajuladores, é ausente de autocrítica, cooperação e empatia, características que a grandeza do cargo exige, além de informação, entre outras que lhe faltam. Foi um candidato literalmente espetacular, mas como governante não sabe decidir, tampouco integrar, muito menos liderar. Não tem comando nem sobre o ministro da Saúde, muito menos sobre seus filhos. Como inspirar a Nação num momento destes?

Ainda não chegamos ao pior momento e o Mundo nos avisa: a coisa é feia. Diante dos nossos olhos, é por essa evidência empírica que o isolamento tem sido necessário, para que, quando a curva estatística chegar no topo, não faltem muitos leitos. É uma atitude inteligente e calculada e antipática. E, ainda que não encontre a justa medida, o governador de Santa Catarina, como outros, poderá ser acusado pelo excesso. A história o julgará, com estatística irrefutável, se a estratégia de salvar vidas para a retomada econômica obteve o melhor resultado possível. É melhor do que esperar um milagre e ter que pedir perdão aos familiares dos mortos, justificado na intenção de salvar a economia.

Dr. Walter Marcos Knaesel Birkner – Sociólogo

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