Brasil

Luiz Henrique, o pensar grande, por Vinícius Lummertz

Será útil para nós catarinenses voltarmos a falar de Luiz Henrique da Silveira neste momento de instabilidade na nossa política. Os catarinenses que elegeram o “novo”, o perfil de um “bom homem normal”, e agora assistem ao impasse político que pode levar o Estado a uma interrupção do mandato com eleições indiretas para a sua conclusão. Neste momento nos perguntamos como tudo isso nos afeta e refletimos sobre a utilidade das lições que LHS nos deixou. Não estou fazendo – até porque não me cabe – nenhum julgamento sobre a conduta do governador eleito por mais de 70% dos catarinenses, mas sim, constatar que não existe “passe de mágica”, nem na política, nem na gestão pública – atividades penosas, difíceis e complexas. Por isso já recorro a uma das frases lapidares do ex-governador Luiz Henrique da Silveira: “A política não dá saltos”.

Tomando uma vacina para continuar a argumentação: também já passou da hora de retirar da sala essa tosca, bruta e mal-ajambrada versão de cidadania do “nada presta”, do “é tudo igual”, que nos leva a um vazio espiritual contra todo o passado que nos trouxe até aqui. No caso de Santa Catarina: uma história de sucesso. Essa iconoclastia superlativa que acaba por vezes celebrando a ignorância como método, a desconfiança e raiva como linguagem, e acaba por não nos deixar avaliar as coisas por nós mesmos, criteriosamente, utilizando nossos milhões de neurônios.

Aplicada a vacina, podemos ter um entendimento sem preconceitos do pragmatismo político de Luiz Henrique, que o fez líder respeitado no país e presidente nacional do PMDB, na era mais importante da redemocratização do país, ao lado de Ulysses Guimarães. Recentemente, nas palavras do ex-presidente Fernando Henrique, “um líder muito eficaz e muito forte”. E o quanto tudo isso fez de LHS vitorioso também em SC.    

Luiz Henrique era “diferenciado”: além de resiliente e pragmático, era também idealista, até mesmo sonhador e visionário. Tinha a coragem de se apresentar assim e o símbolo disso estava nas estátuas de Dom Quixote que mantinha no jardim de casa em Joinville e na mesa do seu gabinete em Brasília para demonstrar toda sua admiração pelo cavaleiro andante que lutava contra moinhos de vento. Essa mistura de pragmatismo e força de liderança são necessárias para fazer as coisas andarem no regime político-partidário brasileiro, caótico e interesseiro, e que dificulta a sua própria reforma. 

Porém, isso por si só não basta para transformar as coisas, se não houver filosofia política, direção, desejo de mudança, idealismo, coragem para levar sonhos para frente apoiado em cultura e conhecimento. Tanto que ele pregava: “Uma cidade sem cultura é um mero depósito de gente”. Essas eram definições que LHS trazia no momento que, ainda no final do século passado, buscava a modernização de Joinville diante de uma lógica pós-industrial amparada em conceitos de dinâmica social e econômica amparados nas novas teorias do espanhol Manuel Castells e do italiano (“o ócio criativo”) Domenico De Masi.  

Esses novos conceitos – culturais, primordialmente – levaram LHS a Moscou para buscar o Bolshoi, assim como a Curitiba para trazer o Shopping Mueller integrado ao Hotel Bourbon. Nascia assim a nova Joinville, do Centro de Eventos Cau Hansen, do maior festival de dança do mundo, da Via Gastronômica, assim como do multinacional Perini Business Park – e isso internacionalizou a cidade e a região. Ao mesmo tempo que Joinville se abria para o mundo, LHS aplicava também os novos conceitos em favor da equidade – por isso o progresso e a mudança deveriam legar oportunidades para todos os bairros da cidade. Essa “política filosófica” seria multiplicada em seus governos do estado a partir da chamada “descentralização”, o desenvolvimento “por toda Santa Catarina”, um sonho ainda a ser perseguido.

A luta visionária e ao mesmo tempo pragmática de LHS contra os moinhos de vento do atraso levaram Joinville a ter uma grande transformação e mais ainda Santa Catarina, que se transformou também em referência internacional na indústria, num estado de logística com cinco grandes portos, polo de tecnologia e inovação e um dos principais destinos turísticos do país. Mais do que isso, SC integrou-se e cresceu mais e melhor do que os vizinhos PR e RS.

LHS poderia ter feito mais? Sim. No final de seu governo, num sábado, voltando de helicóptero da inauguração de obras no Planalto Norte, avistando a Ilha de Santa Catarina, disse-me no fone: “Que linda nossa Ilha, queria ter feito muito mais por ela, mas não me deixaram”. Respondi que havia feito muito, enumerando obras e feitos – ao que ele respondeu: “Não Vinícius, eles não me deixaram”. E começou a enumerar as barreiras conservadoras que encontrou – os moinhos de vento que não conseguiu vencer.

Ainda hoje inspirada em LHS, Joinville amplia seu progresso – e isto será muito importante para todos nós: renovar o sonho que veio de Joinville. Porque SC também carece de renovar o seu plano de vida, mas precisa de um protagonista disposto e preparado para esse desafio. Como Luiz Henrique, esse protagonista precisa “pensar grande” para enfrentar as formidáveis resistências às mudanças – e ele ensinava, sempre, que as grandes soluções são as melhores, porque acabam dissolvendo os pequenos, médios e até os grandes problemas.

Por :Vinícius Lummertz, catarinense e secretário de Turismo de São Paulo.

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