Devaneios de Uma Loba Solitária: “Há uma beleza cruel em pertencer a si mesma.”

A lua nunca me pedia explicações; ela apenas existia, em silêncio enquanto eu tentava lamber minhas feridas…

Existe uma linha tênue entre a solidão que corrói e a solitude que liberta. Durante muito tempo, me disseram que fomos feitos para buscar metades, como se fôssemos pontas soltas de um nó que precisava ser atado a qualquer custo. Mas ninguém te avisa sobre o preço que se paga por tentar caber em espaços que não foram moldados para a sua imensidão.

​Eu cansei de sangrar para manter as pontes dos outros intactas.

​Há uma beleza cruel em pertencer apenas a si mesma.

​É bela porque não há amarras, não há expectativas sufocantes e o silêncio da minha própria companhia se tornou a melodia mais honesta que já ouvi. É cruel porque o topo da montanha é frio, e o uivo de uma loba solitária ecoa sem eco, sem respostas, aceitando que a própria sobrevivência depende unicamente de suas garras.

​Não é que eu odeie o mundo.

Eu apenas aprendi a amar a mim mesma o suficiente para não aceitar migalhas de afeto em troca da minha paz. Correr com a matilha tem suas vantagens, mas caminhar sob a lua, guiada apenas pelo meu próprio instinto, me trouxe uma liberdade que nenhum amor lá fora jamais pôde comprar.

​Sejam bem-vindos ao meu território. Entre se tiver coragem, mas saiba: eu aprendi a me curar sozinha, e não há nada mais perigoso do que uma mulher que descobriu que o seu próprio abraço é o seu abrigo mais seguro.

Capítulo 1

“O Gosto do Inverno”

   A 1.200 metros de altitude, o inverno não pede licença; ele rasga.  Aqui em cima, no topo da montanha, onde as nuvens colidem com as rochas, a solitude é tão nua quanto as escarpas, e o frio tem o gosto oxidado de metal e terra congelada. Eu detesto o inverno.  

   Detesto a sua arrogância cinzenta e a forma como ele insiste em escancarar as fendas – tanto na estrada quanto no peito. Deitada mentalmente sobre as rochas mais altas, observando o mar de névoa que engole os vales lá embaixo, eu me sinto essa loba solitária.  Mas a sobrevivência nas alturas exige menos uivos e mais ação.

   O ritual é bruto: o som seco do machado cortando as lenhas pelo meio reverbera pelo vale, um eco de violência necessária para garantir o fogo que logo mais vai estalar na lareira.

   O inverno também destrói os caminhos.  Olho para a estrada de terra que serpenteia a montanha, castigada pelo gelo cheia de crateras.  Minha resposta para esse isolamento é física: pego uma enxada, arrasto-me até os pontos críticos e começo a tampar os buracos do chão.  Há uma ironia quase cômica nisso.  No meio do nada, sob um vento gélido que congela as narinas, lá estou eu fazendo o trabalho que o município esqueceu.   Quase virei uma contratada da prefeitura, penso, deixando escapar um riso abafado que instantaneamente vira fumaça no ar rarefeito.

Dizem que os lobos uivam para lua por reverência, devaneio, enquanto jogo mais uma pá de terra sobre as pedras.   Mas na verdade cada fenda que cubro nessa estrada, estou tentando fechar meus buracos internos.   

“É mais fácil concertar o chão do mundo do que remendar a alma.”

Quando o corpo cansa e as mãos cobram o preço do esforço, volto para o refúgio.   O fogo na lareira finalmente ganha vida, lambendo a madeira que cortei com o suor do meu próprio empenho.   Olhando para as chamas, a ilusão da alcateia de fumaça e das memórias de verões antigos se desfaz.   Estou sozinha novamente.    Mas há uma liberdade feroz nessa solidão calejada que nenhuma companhia saberia preencher.   O inverno pode governar as alturas, mas os buracos por enquanto, estão cobertos.   E eu permaneço acesa.

“O Eco do Silêncio”

​O fogo na lareira consome a lenha com uma fome ruidosa, mas o mundo do lado de fora da janela permanece em um silêncio absoluto, quase obsceno. A 1.200 metros de altitude, quando a noite cai e o vento dá uma trégua, o silêncio não é a ausência de som; é uma presença física, pesada, que pressiona as paredes da casa e testa a sanidade de quem ficou.

​Eu me acomodo perto do calor, as mãos ainda calejadas do trabalho na estrada. Olho para os meus dedos e vejo os vestígios da terra que usei para tapar os buracos da tarde. O corpo está exausto, cobrando o preço do esforço braçal, mas a mente… a mente se recusa a deitar. É o paradoxo de ser uma loba solitária: o corpo busca o isolamento da caverna, mas o pensamento insiste em correr o mundo.

​Na falta de uma alcateia real para compartilhar o calor ou dividir o fardo, os devaneios se tornam os meus companheiros mais leais — e, às vezes, os mais perigosos.

​O isolamento na montanha é um espelho sem moldura, penso, observando as faíscas que sobem pela chaminé. Ele não te permite olhar para os lados. Você é obrigada a olhar para dentro, e nem sempre o que encontra ali está pacificado.

​Começo a repassar os nós que deixei lá embaixo, no vale, nas cidades humanas onde as pessoas se esbarram sem se ver. Penso nos contratos não assinados, nas palavras que engoli para não iniciar uma guerra e nas pontes que precisei queimar para salvar a minha própria pele. Ali embaixo, a vida exige uma máscara social impecável, um jogo dinâmico e estratégico. Aqui em cima, as aparências não valem nada.

A montanha não se importa com quem eu sou, apenas com a minha capacidade de cortar lenha antes que o frio congele o meu sangue.

​Deixo um suspiro escapar. Amanhã a estrada provavelmente terá novos buracos criados pelo degelo, e eu estarei lá fora de novo, com a minha enxada, desafiando a engenharia pública e as minhas próprias ausências.

​Por enquanto, viro as costas para o inverno que arranha o vidro da janela. Alimento o fogo com mais um pedaço de nó de pinho. Deixo que os fantasmas do passado corram lá fora no frio gélido. Aqui dentro, na minha solidão de altitude, eu sou a única dona do meu próprio inverno.

Gi Coradini

Continua na próxima edição.

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