Papa Reúne-se com Vítimas de Abusos Sexuais, Mas Deixa de Fora Principais Associações
Com o propósito de abordar um dos temas mais sensíveis da Igreja Católica contemporânea, o Papa Leão XIV reuniu-se com seis vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero na Espanha. No entanto, o encontro gerou uma forte onda de contestação. Afinal, as principais organizações representativas de sobreviventes foram excluídas da agenda oficial.
De acordo com um curto comunicado emitido pelo Vaticano logo após a reunião, as vítimas presentes apresentaram propostas concretas para alcançar uma resposta “mais eficaz” por parte da instituição. Em contrapartida, o Pontífice comprometeu-se a utilizar o documento como “base para esforços futuros, de forma a conseguir que a Igreja seja, de fato, um lugar seguro”.
Polêmica e Acusações de Escolha “A Dedo”
Apesar das intenções declaradas pela Santa Sé, a reunião esteve rodeada de intensa polêmica. Isto ocorre porque as principais associações de vítimas não foram convidadas e, consequentemente, acusaram a diocese de Madrid de selecionar os participantes estrategicamente para evitar a exposição midiática.
“São vítimas que, legitimamente, decidiram não falar com os meios de comunicação, pois é a sua forma de processar a dor de maneira privada”, explicou Mikel Hurtado, porta-voz da associação Reparación Ya.
Por outro lado, o ativista lançou duras críticas à postura do Vaticano:
“O Papa não quer receber as vítimas ou os ativistas que têm denunciado a pederastia publicamente durante os últimos sete anos porque somos vozes incômodas. Certamente, iríamos fazer perguntas que ele não quer responder e propor medidas rigorosas de proteção que ele não está disposto a ouvir.”
O Caso da Abadia de Montserrat em Foco
Com efeito, a indignação de Hurtado possui um forte componente pessoal e geográfico. Ele foi um dos primeiros a denunciar publicamente os abusos sofridos na Abadia de Montserrat, que curiosamente é uma das paragens programadas na atual visita de Leão XIV à Espanha. Desde 2019, o ativista lidera as frentes pelo direito a uma indenização justa e pelo reconhecimento institucional das vítimas.
Portanto, presenciar o líder máximo da Igreja Católica visitar o exato local onde ocorreram as agressões — ao mesmo tempo em que recusa um encontro direto — é, segundo Hurtado, algo “difícil de digerir”.
Além disso, a situação agrava-se pelo fato de Montserrat recusar-se a cumprir o acordo firmado entre a Igreja e o Estado espanhol. Esse pacto visa indenizar as vítimas cujos crimes já prescreveram ou cujos agressores já faleceram. Diante disso, o ativista questiona:
- “Como é possível, de todas as ordens católicas, que o Papa escolha justamente esta, que é a que está a gerir a situação da pior forma?”
O Posicionamento Oficial do Vaticano
Anteriormente ao polêmico encontro, durante uma reunião com o episcopado espanhol, Leão XIV já havia abordado publicamente a problemática. Na ocasião, o líder religioso classificou os abusos sexuais no seio da Igreja como “uma praga”.
Em resumo, o Papa reiterou que a comunidade eclesiástica tem a estrita obrigação de responder a essa crise por meio de cinco pilares fundamentais:
- A escuta atenta;
- A busca pela verdade;
- A aplicação da justiça;
- A devida reparação histórica;
- O compromisso inequívoco com a prevenção e a cultura do cuidado.
Todavia, para os ativistas que ficaram de fora, as palavras do pontífice continuarão a soar vazias enquanto as lideranças mais críticas da sociedade civil organizada permanecerem silenciadas.