Tecnologia, observação do céu e turismo: conheça os benefícios do radiotelescópio BINGO, único no Brasil

“Diamante do sertão”. O apelido se refere ao radiotelescópio BINGO (acrônimo para “Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations”), que está sendo instalado na Serra do Urubu, na cidade de Aguiar, no interior da Paraíba. E ele não foi batizado assim apenas por conta do seu tamanho. O projeto representa um gigantesco passo para a ciência e tecnologia do Brasil.

O objetivo principal do BINGO é explorar novas possibilidades na observação do universo a partir do céu brasileiro, segundo o professor Elcio Abdalla, coordenador do projeto e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP). E são muitas coisas a serem vistas em um “território nacional” sobre as quais ainda se sabe muito pouco. O projeto ainda vai contribuir com a visão do Hemisfério Sul para um trabalho sobre o fenômeno que já vem sendo realizado por meio do Chime (Canadian Hydrogen Intensity Mapping Experiment) no Hemisfério Norte.

Todo o projeto foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) além da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do governo do Estado da Paraíba. 

“Saber o que está acontecendo em cima de nossas cabeças é muito importante. Essa observação poderá nos trazer inclusive informações estratégicas, como identificação e mapeamento de satélites que circulam por aqui, ruídos e ondas de rádio, por exemplo. O projeto será um monumento nacional. Em termos de cultura científica e orgulho nacional isto é enormemente importante”.

A primeira meta científica do BINGO é achar ondas causadas por oscilações de bárions. Ficou confuso? O assunto é mesmo bastante técnico, mas segundo Abdalla, essas medidas poderão nos dar informações valiosas. “Esta informação vai permitir um maior conhecimento da matéria existente no Universo. Em particular, sobre a estrutura do Setor Escuro, que é a maior parte do universo (95%) e sobre a qual nada sabemos”, explica. E as funcionalidades e benefícios de um radiotelescópio vão ainda mais além. 

Veja outros cinco importantes marcos que o BINGO traz para o Brasil. 

Ineditismo – O primeiro resultado tecnológico do BINGO já mostra o ineditismo desse projeto. A confecção de uma corneta grande e original, que jamais havia antes sido fabricada, leva a uma tecnologia que não era conhecida no Brasil. Elas são os elementos responsáveis pela alta sensibilidade necessária para a detecção dos sinais cosmológicos. “A corneta não só vai captar ondas de rádio introduzindo uma tecnologia diferente para o país. A sua própria fabricação foi, ao mesmo tempo, nova e eficaz e expandiu o conhecimento científico aplicado em nosso país”. 

Energia – Outro importante fenômeno que os cientistas buscam entender e observar melhor são as Rajadas Rápidas de Rádio (Fast Radio Bursts). Elas são vistas com mais facilidade pelo telescópio do BINGO. “Estão entre os fenômenos mais energéticos do Universo. Emitem, por vezes em milissegundos, o equivalente a toda produção de energia pelo Sol em três dias”, afirma Abdalla. 

Qualificação – O BINGO é um projeto cujo resultado vem a partir dos três pilares do trabalho da universidade: pesquisa, ensino e extensão. A sua própria realização demonstra a importância do investimento em tecnologia, pesquisa e educação no país. Sua construção e, mais tarde, sua operação, demandam ainda uma mão de obra de altíssima especialidade em várias áreas, incluindo inteligência artificial e análise de dados, conhecimento que, mais tarde, pode ser usado também em outras áreas, como economia. 

Educação local – Mas ele também deve despertar o interesse da população local em astronomia. Um dos objetivos é a realização de aulas de ciências nas escolas das redondezas, além da promoção de visitas guiadas e educativas. “O assunto não é necessário apenas para a comunidade científica, mas para a população em geral. Não podemos simplesmente falar para doutores, temos que colocar as pessoas a par, já que são elas que pagam pela nossa pesquisa. Nós temos, até como obrigação, contribuir para um desenvolvimento real e mostrar ao cidadão que a ciência é importante, que a ciência muda o mundo”. 

Turismo – Já há um observatório na cidade de Arecibo, em Porto Rico, que tem sido um importante marco, há mais de 50 anos, tendo aparecido em filmes e incentivado o turismo na região. O mesmo deve acontecer com o radiotelescópio que estamos construindo em Aguiar, acredita Abdalla. “Para o sertão paraibano, em termos de visibilidade será um marco importantíssimo”, gerando receita para a população local. 

Observação. Um telescópio, é claro, permitirá a observação de diversos outros fenômenos que acontecem no céu brasileiro. Entender e conhecer traz conhecimentos importantes e estratégicos sobre o que acontece em cima de nós, quais fenômenos estão passando por aqui. É informação importante e até estratégica para o governo e para toda a sociedade”, conta. Alguns desses pontos incluem também a observação de pulsares e estrelas variáveis e satélites, por exemplo.

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