Turquia: “Temos razão para protestar”
À TSF, Cahit, um jovem turco radicado em Portugal, afirma que “ninguém tem medo, porque as pessoas já estão vivendo na pior situação”

Cahit, 24 anos, está em Portugal há três anos e meio. Veio para um projeto de voluntariado em Braga e atualmente vive no Porto e trabalha num call center.
Este jovem já participou em protestos na Turquia, em 2019, na altura por causa de uma eleição para a câmara de Istambul antes do atual presidente da Câmara ter sido eleito.
Agora acompanha-os à distância pelas notícias e pela família, que vive no sul do país, e pela irmã que está na universidade em Istambul.
Uma coisa é certa, este jovem diz que toda a gente tem uma razão para protestar nas ruas e não é só pelo facto de o presidente da Câmara de Istambul, Ekrem Imamoglu, apontado como possível candidato às eleições presidenciais em 2028, ter sido detido, acusado de corrupção, e, entretanto, destituído do cargo.
“Estamos novamente em protesto, por motivos parecidos, mas a diferença é que agora toda a gente tem uma razão para protestar. Toda a gente já passou por alguma injustiça do governo. O rastilho para os jovens saírem para as ruas estava lá. Isto já era esperado. Antes de terem detido o presidente da Câmara de Istambul, já estavam a levar polícias de outras cidades para Istambul, porque já estavam à espera dos protestos. Tudo o que fizeram até agora foi planeado, porque as pessoas estão a ficar mais corajosas. Todos os dias as ruas se enchem mais de gente”, diz o jovem turco à TSF.
Os protestos começaram nas universidades. Na noite desta segunda-feira, os estudantes iniciaram uma greve por tempo indeterminado e a contestação já alastrou a várias partes do país. O próximo passo é ver se as manifestações passam a greve geral.
“Os protestos estenderam-se a metade do país, de cidades a aldeias, em particular no centro. Estamos no momento de ver se os protestos evoluem para uma greve geral, se os sindicatos estão envolvidos o suficiente, porque, à exceção dos jovens, há muitos setores da sociedade preocupados com as consequências do que lhes pode acontecer enquanto indivíduos, porque o governo tem muitas ferramentas para reconhecer os manifestantes e todos os dias levam pessoas para a prisão”, denuncia.
O jovem turco afirma que a situação no país está insustentável a vários níveis: “À exceção do governo, ninguém tem medo, porque as pessoas já estão a viver na pior situação. A inflação disparou, as pessoas nunca compram as mesmas coisas no mercado pelo mesmo preço, o nível de educação baixou porque continuam a proibir temas sobre os quais estão contra (…) A saúde está a ficar pior porque os médicos estão a fugir em busca de melhores condições e o governo não está a fazer nada. E depois a justiça. Eu posso morrer em Portugal, e quem for responsável vai ser punido por isso, mas na Turquia isso não é garantido. As pessoas já vivem no pior dos cenários e não estão preocupadas com isso. O que as preocupa é se esta situação continua assim, se os protestos não conseguem mudar nada”.
Cahit diz que gostava que fosse desta vez que assistia à queda do regime de Erdogan, mas não arrisca previsões.