Devaneios de Uma Loba Solitária: “O Mundo Através dos Meus Olhos”
Capítulo 4
A floresta nunca é apenas uma coleção de árvores e sombras; ela é o que eu decido ver enquanto caminho por ela. Durante muito tempo, a humanidade tentou me convencer de que somos pequenas poeiras estelares à mercê do vento, reféns de um mundo vasto, frio e indiferente. Mas a verdade que a solitude me ensinou é o avesso disso: o mundo é a extensão exata dos meus olhos.

Se olho de forma crítica, a névoa se dissipa e as estruturas se revelam. Não há um “cenário” estático lá fora onde eu simplesmente piso. Eu sou o centro do meu próprio universo. Tudo — absolutamente tudo — orbita ao redor da forma como escolho processar a existência.
A realidade não passa de uma tela em branco que ganha vida com as tintas do meu estado de espírito. O mundo não tem uma cor fixa; ele usa a cor da lente que decido vestir hoje.
Se eu rio, o mundo se inclina e descobre a graça. As esquinas parecem mais leves, os absurdos da vida viram comédia, e até o uivo do vento soa como uma canção cúmplice. O mundo se torna engraçado porque decidi não levar sua rigidez a sério.
Mas, se eu choro, a própria terra sob meus pés parece absorver o peso do meu peito. O céu se fecha em um cinza denso, as calçadas parecem hostis e o silêncio se torna uma presença opressora. O mundo se faz triste porque ecoa a minha própria dor.
Essa é a grande soberania da loba que caminha só: entender que não sou vítima das circunstâncias, mas a diretora da minha narrativa. Se o peso do exterior tenta me esmagar, lembro-me de que a chave do significado está guardada comigo. O exterior fornece apenas a matéria-prima bruta — os fatos, os encontros, as perdas —, mas o tom, o drama ou a superação sou eu quem escrevo.
Descobrir que somos o centro do nosso próprio mundo não é um ato de egoísmo; é um despertar de poder. É a liberdade absoluta de saber que, se a paisagem lá fora parecer insuportável, eu sempre posso mudar a forma de olhar. E, ao mudar o olhar, recrio o próprio mundo.
”Dedico as linhas deste capítulo às palavras de um querido e nobre amigo de longa data, que certa vez me presenteou com a síntese de toda a existência: se você rir, o mundo inteiro fica alegre; se chorar, ele se entristece. Uma lembrança eterna de que o universo que nos cerca nada mais é do que o reflexo de quem somos.”
Gi Coradini





