
Com o fim das bets, especialista detalha como reorganizar as finanças
Estudo do Insper aponta aumento médio de 20% na inadimplência de novos apostadores nos 12 meses seguintes à primeira aposta.
Com o encerramento definitivo das bets no Brasil — determinado pela Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, com desativação total de plataformas prevista para o próximo dia 6 de outubro —, encerra-se um ciclo marcante que comprometeu, em patamares inéditos, a saúde financeira das famílias brasileiras. No entanto, a desativação dos sites e aplicativos não extingue, por si só, as obrigações assumidas nem desarticula os profundos mecanismos psicológicos que o hábito de apostar enraizou em seus adeptos.
Os dados evidenciam a real magnitude desse impacto. Um estudo conduzido pelo Insper em parceria com a fintech Stone revelou que, entre os novos apostadores, a proporção de inadimplência foi, em média, 20% superior nos 12 meses subsequentes à primeira aposta, ao passo que a linha de crédito disponível sofreu uma retração de cerca de 16%. Consequentemente, tal efeito cascata repercutiu de maneira expressiva no varejo. De acordo com estimativas da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a inadimplência impulsionada pelas bets drenou R$ 143 bilhões do comércio entre janeiro de 2023 e março de 2026, comprimindo drasticamente o volume de recursos destinados ao consumo essencial.
Ademais, os números do Banco Central ilustram a capilaridade do fenômeno: em 2024, aproximadamente 24 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma transferência via Pix para plataformas de apostas. Em complemento, um levantamento recente da Febraban aponta que 37% dos entrevistados admitiram que os gastos com jogos comprometeram a aquisição de gêneros alimentícios, enquanto 36% registraram prejuízos diretos no adimplemento de contas básicas.
“É fundamental dar o nome correto ao problema: aposta não constitui fonte de renda. O jogo de azar configura, por essência, uma atividade em que o apostador incorre em perdas no longo prazo. A ilusão de recuperar o capital investido alimenta um ciclo vicioso de novas apostas, persistindo mesmo quando o equilíbrio financeiro do lar e a estabilidade profissional já se encontram sob grave risco. Sinais como dificuldade para cessar o comportamento, despesa oculta e tentativas recorrentes de ‘reaver o prejuízo’ exigem atenção e acolhimento especializado, jamais constrangimento”, pontua Ralf Marcos Ehmke, conselheiro da BluSol, instituição de crédito com atuação nos estados do Paraná, de Santa Catarina e de São Paulo.
Para aqueles que necessitam reestruturar o orçamento, a orientação do conselheiro sintetiza-se em três etapas fundamentais:
- Mapeamento exaustivo do passivo: Consiste em inventariar, com rigor, todas as fontes de renda, despesas fixas, parcelamentos, faturas e empréstimos, a fim de dimensionar o comprometimento real da renda. Esse diagnóstico afasta decisões impulsivas baseadas unicamente no saldo corrente da conta.
- Realocação estratégica de capital: Caso parte dos recursos fosse direcionada às apostas, tal montante deve ser redirecionado, primeiramente, para a quitação de débitos e, posteriormente — uma vez estabilizadas as contas —, para a constituição de uma reserva de emergência. Sob hipótese alguma retorne ao jogo; afinal, apostar não repara perdas, apenas as amplifica.
- Utilização consciente do crédito: Instrumentos como cartões, cheque especial e empréstimos cumprem um papel estritamente tático quando atrelados a finalidades específicas, a exemplo de investimentos em equipamentos, capital de giro ou expansão empresarial. Destarte, jamais recorra ao crédito para apostar ou cobrir déficits de jogos, visto que esta é a via mais célere para o superendividamento. Antes de firmar qualquer contrato, avalie minuciosamente o Custo Efetivo Total (CET) e o impacto das parcelas nos meses vindouros.
“A vigilância, por sua vez, deve estender-se ao círculo familiar e de amizades. Caso identifique alguém nessa condição, aborde o tema em âmbito privado e livre de julgamentos. Ofereça suporte para a reorganização financeira, desde que haja anuência da pessoa, e resguarde a integridade do seu próprio orçamento: jamais empreste seu nome, cartão ou senha, tampouco assuma dívidas inexequíveis. Apoiar não significa financiar novas apostas”, complementa o especialista.
Cumpre ressaltar que o comportamento de jogo problemático é tratado como uma questão de saúde pública. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza assistência integrada aos afetados e a seus familiares: por intermédio do aplicativo Meu SUS Digital, é possível acessar o miniprograma “Problemas com jogos de apostas?”, sendo a Unidade Básica de Saúde (UBS) o canal de porta de entrada para o devido encaminhamento aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), sempre que necessário. Ademais, aqueles que ainda mantêm saldo depositado em plataformas devem atentar-se ao prazo limite para a retirada voluntária, estipulado para as 23h59 do dia 5 de outubro.
“Nosso modelo de crédito pauta-se pela vertente produtiva e orientada. Por trás de cada operação reside um legítimo projeto de vida e de trabalho. O jogo, em contrapartida, representa a antítese disso: trata-se da renda que se evapora sem deixar qualquer legado construído. Combater o superendividamento e fomentar a educação financeira alicerçam a nossa missão desde a gênese”, conclui Ralf.





